Há trabalhos que começam antes da primeira palavra. Começam quando o silêncio deixa de ser vazio e se torna presença. No repertório draconiano, Tiamat abre essa passagem: águas negras, ventre primordial, a força que dissolve uma forma para que outra possa nascer.
Para entrar nesse universo, é preciso conhecer os nomes, os atributos e os símbolos. Cada um traz uma qualidade de trabalho. O portal reúne essas forças; a chave prepara a entrada. O que segue é uma adaptação do material recebido, conservando seus fundamentos e distinguindo sua leitura ocultista da narrativa mitológica que a inspira.
As águas e o nascimento do conflito
O Enuma Elish, o épico babilônico da criação, apresenta Apsu e Tiamat como águas primordiais: as águas doces e as águas salgadas. Sobre elas aparece Mummu, o vizir de Apsu. Do encontro das forças primais vêm Lahmu e Lahamu; depois, Anshar e Kishar, Anu e Nudimmud.
Os deuses mais jovens perturbam Apsu, que decide destruí-los, aconselhado por Mummu. Nudimmud vence Apsu. Com Damkina, gera Marduk, que mais tarde enfrentará Tiamat. Ela entrega a Kingu as Tábuas do Destino e reúne um exército de onze seres. A guerra coloca em movimento o conflito entre o caos primordial e a ordem que Marduk estabelece.
Na leitura draconiana do texto, esses seres expressam possibilidades de transformação, visão, defesa, dissolução e criação. As correspondências astrais e os métodos apresentados a seguir pertencem a esse repertório esotérico. Não são uma tradução literal do épico antigo.
Tiamat — o oceano primordial
Tiamat surge como um oceano de águas negras. A superfície pode parecer tranquila; depois, as ondas se levantam, os redemoinhos se abrem e tudo o que parecia firme começa a perder seus contornos.
Seu trabalho se relaciona à dissolução do ego e à receptividade diante das forças draconianas. É um retorno ao primal, às águas do inconsciente. Dentro da experiência ritual, o praticante abandona a resistência e se percebe fluido, como consciência que já não depende de uma forma rígida.
O material associa Tiamat ao esvaziamento da mente, à recuperação das forças e à cura no sentido espiritual do rito. A partir dessa abertura, o magista pode se aproximar dos poderes específicos dos outros seres.

Kingu — autoridade e destino
Kingu aparece como guerreiro de pele escamosa e olhos de fogo. Também pode assumir uma forma humana unida ao corpo de um escorpião. Sua comunicação é intensa; em algumas visões, acontece pelo olhar, sem necessidade de palavras.
As Tábuas do Destino, recebidas de Tiamat, representam sua autoridade. No repertório do texto, elas podem aparecer como uma tábua em sua mão, três sobre o peito ou doze em um cordão. Nelas estão os feitos dos deuses e as regras que organizam o cosmos e a vida.
Kingu rege o dinamismo, a agressividade, o êxtase e o ímpeto sexual. Sua força pode ser dirigida à destruição ou ao fortalecimento. Sua autoridade sobre os dragões também o torna uma referência para o domínio e a condução dessas energias no trabalho ritual.

Musmahhu — os olhos que atravessam a distância
Musmahhu é descrito como uma serpente ou dragão de sete cabeças, associado à Hidra. Pode aparecer como serpente cega com chifres e um olho entre os dentes, como serpente de um só olho ou com a cabeça de um crânio.
Seu campo é a visão: perceber o distante, despertar o terceiro olho e navegar pelo plano astral. O material descreve o magista assumindo a forma de uma serpente que percorre o éter, capaz de curar ou envenenar os duplos etéricos encontrados nesse percurso.
Suas paisagens incluem jardins e campos floridos. As árvores indicam a passagem a planos elevados; as aberturas na terra, o contato com regiões mais densas. A imagem do caminho se torna parte do ensinamento.

Musussu — entre a vida e a morte
Musussu reúne traços de serpente, leão e pássaro. O texto o associa a Ninazu, Tispak e Ningishzida. Em outras manifestações, surge como mulher vampírica, serpente alada ou criatura que une dragão e morcego.
O trabalho descrito envolve a transformação do corpo astral, o voo pelo éter e a absorção de energia vital. Também inclui a comunicação com desencarnados por meio de um espelho. Para essa operação, o material menciona o nome do falecido escrito em um tecido e um elo de sangue. A referência é mantida como descrição do método recebido, sem instruções para ferir o corpo.
Seu fundamento une Eros e Thanatos: vida e morte, desejo e dissolução, presença e ausência.

Basmu — o fogo que encerra ciclos
Basmu aparece como serpente venenosa ou serpente com chifres, com ou sem pernas e asas. O texto aproxima seu nome da cobra Uraeus e da constelação de Serpentário.
Sua força reúne fogo e água. As visões podem trazer terremotos, desastres, lava, gelo e os restos de um mundo desfeito. São imagens de finalização: uma ordem que chega ao fim, um ciclo que já não sustenta a vida que tenta continuar.
No plano ritual, Basmu é associado ao fogo astral, utilizado tanto na proteção quanto no ataque. Seu trabalho exige clareza sobre aquilo que se pretende encerrar.

Usumgallu — equilíbrio e poder pessoal
Usumgallu se apresenta como dragão dourado, serpente alada de ouro ou naja de olhos vermelhos. Pode se dividir em duas serpentes, uma prateada e outra dourada.
O material o relaciona à formação de uma aura de dragão dourado e ao envio de energias de equilíbrio pelo plano astral. As duas serpentes representam polaridades da Kundalini, aproximadas das energias masculina e feminina.
Seu campo inclui o equilíbrio, o fortalecimento pessoal, a iniciativa, o ânimo e o bem-estar espiritual. É a força que reúne o que estava dividido e dá direção ao que permanecia disperso.

Lahamu — trovão e ímpeto combativo
Lahamu, também chamado Lahmu ou Lahami no material, traz o sentido de “o peludo”. É descrito como guerreiro de longos cabelos de fogo, com uma serpente entalhada no cetro. Sua consorte pode aparecer com seis braços terminados em lâminas.
Seus atributos são a energização, a eletricidade e as tempestades. A força do trovão se expressa como ímpeto de guerra e êxtase combativo, próximo do estado berserk.
Os raios são descritos como instrumentos de ação precisa e rápida no plano astral. As visões podem mostrar altares esquecidos no deserto, lugares onde essa presença era cultuada no universo simbólico do trabalho.

Ugallu — os ventos que mudam o rumo
Ugallu, a Grande Tempestade, é associado a tufões e ciclones. Pode surgir com cabeça de leão, ligado a deuses do submundo como Nergal, ou como mulher translúcida acompanhada de rugidos e ventanias.
Seu repertório reúne ar, eletricidade e água. O texto lhe atribui punição dos transgressores e a possibilidade de provocar doenças no campo mágico que descreve. Seus ventos agem sobre situações, deslocando acontecimentos e mudando a direção dos eventos.
Ugallu também aparece ligado à mudança de aparência e à produção de ilusões, pela manipulação do ar. Sua própria manifestação pode se alterar enquanto o trabalho acontece.

Uridimmu — a noite e o ocultamento
Uridimmu representa os cães raivosos. Aparece como leão ou lobo de cabeça humana, ou como uma espécie de centauro com corpo de leão. O material o associa à constelação do Lobo e aproxima sua força da de Kusarikku.
Rege o deserto escuro e a noite. Seus atributos incluem enxergar no escuro, perceber o que está escondido e desfazer magias de ocultamento.
O mesmo repertório descreve a possibilidade de envolver o magista em uma nuvem negra, dificultando sua detecção, e de consumir a força vital de inimigos no plano astral. Revelar e esconder são movimentos de uma mesma presença.

Girtablullu — a carapaça e o veneno da transformação
Girtablullu, ou Akrabamelu, é o Homem-Escorpião. A arte descrita no texto reúne cabeça humana, pernas de ave, asas e traços de escorpião e serpente. Ele é aproximado dos guardiões da montanha do nascer do Sol na narrativa de Gilgamesh.
O material o associa a Sagitário e ao movimento dos corpos celestes pelas pinças do escorpião. Sua força é o veneno astral, apresentado no cálice do “Veneno de Deus”: uma imagem de transformação intensa.
Rege criaturas subterrâneas e permite trabalhar sentimentos e emoções. A carapaça do escorpião simboliza a resistência externa que protege um interior capaz de sentir e se transformar.

Umu Dabrutu — a ruptura da ordem
Umu Dabrutu, as Grandes Tempestades, surge como vórtice negro com olhos de uma besta, ou como criatura de tentáculos e asas de fogo. Nuvens e fumaça acompanham suas formas.
Ventos, trovões e eletricidade se unem em uma atuação de dissolução, dispersão e quebra. Aquilo que estava fixo perde sua sustentação. Uma ordem estabelecida pode ser rompida antes que outra organização seja construída.
Dentro desse trabalho, a desordem é uma etapa da transformação. É preciso reconhecer o que será desfeito e o que se deseja preparar depois da ruptura.

Kulullu — os abismos da psique
Kulullu é o Homem-Peixe, associado no material aos Anunnaki e às entidades aquáticas do repertório babilônico. É aproximado de Aquário, de sereias e tritões, e de seres híbridos com traços de aranha, polvo e peixe.
Seu território são os abismos aquáticos e as camadas profundas da psique. O texto o relaciona à análise dos sonhos e à produção de sonhos ou pesadelos específicos, no praticante ou em outras pessoas.
Sua evocação é apresentada como especialmente adequada ao espelho d’água. Podridão e degeneração podem acompanhar as imagens, no sentido mental e material descrito pela fonte. Conteúdos mentais também podem ser dissolvidos nessa corrente.

Kusarikku — dar forma à matéria
Kusarikku é o Homem-Bisão, apresentado também como touro ou minotauro. Pode carregar o disco solar, combater bestas e proteger o magista. O material o associa a Capricórnio e a Moloch, o rei entronado com chifres.
Seu repertório inclui as almas queimadas e os mortos do deserto, ao lado de forças dinâmicas e criativas. É uma presença que molda: cria o cosmos a partir do caos e aproxima o trabalho dos elementos da Terra, do ouro, das riquezas e da vida material.
Uma de suas imagens é o praticante segurando argila no plano astral. Nessa argila, dá forma ao que deseja materializar. A vontade deixa de ser apenas pensamento e encontra uma figura que possa sustentá-la.

Evocar, invocar e trabalhar pelos sonhos
Tiamat! Leviathan! Lotan! Tannin! Yam! Nahar! Rahab! Behemoth! Tehom! Hubur! Theli! In Nomine Draconis, Ho Ophis Ho Arch ai os, Ho Drakon Ho Megas!
Essa é a fórmula de abertura reproduzida no material. Ela introduz o chamado às forças draconianas, mas é a direção do trabalho que define como o rito será conduzido.
Na evocação, a entidade é chamada a se apresentar diante do magista. O encontro procura conselho, comunicação ou negociação em torno de um intento. Escolhe-se um meio de manifestação: espelho, fumaça de incenso ou cristal. O selo e as oferendas dirigem a energia para esse espaço. A fonte cita metais, sangue e animais entre os elementos de seu repertório; essa menção descreve o texto recebido, sem orientar sacrifícios ou ferimentos. As mensagens são descritas como palavras, impressões telepáticas ou visões.
Na invocação, o praticante se sintoniza com os aspectos do dragão. A dissolução do ego reduz a interferência da mente consciente e prepara a receptividade. Gnose, meditação e êxtase sexual aparecem como recursos desse estado. Saliva, sêmen ou sangue sobre os selos são mencionados pela fonte como elos pessoais, sem que sejam necessários procedimentos de lesão.
Nos trabalhos pelos sonhos, o encontro se expressa por símbolos. O sono pode acontecer de maneira habitual ou em uma preparação cerimonial, na presença dos elementos ritualísticos. Registrar o que foi vivido ajuda a distinguir impressões passageiras de imagens que retornam e ganham significado.
A chave, o portal e o útero de Tiamat
O retorno ao útero de Tiamat organiza uma narrativa de morte e renascimento espiritual. O magista atravessa os Portões da Noite e prepara, nesse ventre simbólico, as qualidades que deseja desenvolver e a intenção que será entregue ao mundo.
A chave pode ser desenhada em uma base ligada à Terra: pedra, metal, madeira ou papel. Também pode ser traçada no ar durante o rito. Ela marca a entrada e concentra a decisão de atravessar.

O portal reúne os onze símbolos dos filhos de Tiamat. Pode ser preparado nos mesmos materiais da chave ou permanecer em uma estrutura definitiva, entalhado em pedra, madeira ou no chão de um templo dedicado ao draconismo.
O uso contínuo do portal, segundo o material, sintoniza gradualmente o espaço com essas forças. A gestação ritual prepara o magista e seu intento. Depois vem o trabalho de sustentar, na vida, a forma que se deseja fazer nascer.

Sobre esta adaptação
Texto adaptado a partir de “Sigilo do útero de Tiamat e seus filhos”, documento fornecido para esta publicação. A autoria original não foi identificada no arquivo recebido. A adaptação e a curadoria são do Bruxo Òṣó Àjẹ́; os ensinamentos e os sigilos pertencem ao material de origem.



